Uma brasileira no topo do mundo
Na contramão da crise imobiliária europeia, paulista de Bauru investe US$ 50 milhões para abrir um exclusivo hotel 5 estrelas na Suíça
Sucesso. Junto com o marido, Nati Felli começou a investir no mercado imobiliário suíço e hoje é dona do mais novo hotel de luxo de Crans-Montana. Foto: Deprez S/A /Divulgação
Por
Roberto Gazzi, Crans-Montana (Suíça)
A neve que cai fora de época nos Alpes Suíços é saudada com um "oh", misto de espanto e admiração, pelo garçom italiano que serve o café da manhã. A vista é deslumbrante: os pequenos flocos tornam ainda mais belo o cenário que, a 1,5 mil metros de altitude, mostra um campo de golfe no primeiro plano e os montes nevados ao fundo - o Matterhorn à esquerda disputando em beleza com o Montblanc à direita. A paisagem já é comum para Nati Felli. Essa paulista de Bauru, cidade a 350 quilômetros da capital, é a dona do mais novo hotel de luxo de Crans-Montana, um dos endereços mais requintados nas montanhas do Vallais, no cantão francês da Suíça.
A opção de Nati causou espanto entre seus pares. Afinal, nos últimos anos, dez hotéis fecharam suas portas na cidade. Mais: ao contrário da maioria dos hotéis de montanha do país, o de Nati, o Guarda Golf, abre o ano todo. A maioria funciona somente nas altas temporadas de verão e de inverno. Audácia é uma palavra habitual do dicionário desta administradora de empresas com especialização em hotelaria no Les Roches-Bluche, a lendária escola de gastronomia e hotelaria suíça, cuja sede fica a 3 quilômetros de seu hotel.
O espírito empreendedor de Nati se manifestou cedo. Criança, assistia ao pai ler diariamente o Estadão. Cuidadoso, ao término da leitura deixava o jornal lá, intacto, dobradinho. "Via o jornal ali, novinho, e achava aquilo um desperdício." Daí nasceu a ideia: vender o jornal com desconto para o vizinho. Começou a juntar dinheiro cedo.
Já formada, abriu uma escola em sociedade. O negócio prosperou, mas ela queria mais. Voltou de uma viagem aos Estados Unidos com a ideia fixa de abrir uma lanchonete fast-food na cidade. Sucesso, mas Nati seguia insatisfeita. Queria fazer uma especialização em hotelaria. Mesmo com a oposição da família, não teve dúvidas. Vendeu a lanchonete e partiu para a Suíça.
Terminado o curso de hotelaria, em 1990, resolveu não voltar ao Brasil. A decisão foi facilitada ao conhecer Giancarlo, um médico suíço de ascendência italiana. Crans-Montana é conhecida por seus centros de reabilitação médica, devido ao ar considerado o mais puro do país (o cenário lembra muito o do clássico romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann). Não à toa, quatro das seleções que vão à Copa da África escolheram a cidade para a preparação. Entre elas a da Suíça, curiosamente chamada de Nati. A seleção ficou em outro hotel, mas a brasileira comemorou a estadia de várias das mulheres dos jogadores.
O sonho do hotel. Juntos, Nati e o marido começaram a investir no mercado imobiliário da cidade. Enquanto muitos hotéis iam fechando, prédios residenciais de luxo para férias iam sendo erguidos. Entraram no filão. Mas ela queria mais: tocar o seu hotel. Comprou um, velho. Mas fugiu da opção de apenas reformá-lo. Colocou-o abaixo para fazer uma construção de altíssimo padrão. Fez isso com recursos próprios, com garantia de bancos suíços, por conta dos incentivos fiscais. Investiu US$ 50 milhões, boa parte em acabamento, equipamentos e mimos dignos dos melhores hotéis do mundo.
Parte foi bancada pela venda de apartamentos do condomínio residencial que está ligado ao hotel. Um dos condôminos, habituée do hotel, é o ator inglês Roger Moore, um dos 007 do cinema. O enorme túnel que liga as duas construções é digno de filme da série.
Foram quatro anos de construção. Já quase no final, a crise financeira mundial explodiu. "Fiquei preocupada, mas acredito no meu modelo." O modelo no qual ela aposta é o do bom gosto e alto luxo, com um atendimento personalizado. Para isso, fez um hotel de apenas 25 quartos. "Profissional, mas com um carinho brasileiro, desconhecido aqui."
O hotel entrou na lista do The Leading Small Hotel of the World, instituição que congrega hotéis-butique de luxo ? no Brasil, o Fasano e o Emiliano, por exemplo, estão na lista. O Guarda Golf está lá, na página 241 no catálogo deste ano. "É um selo de qualidade."
Numa atenção que parece beirar a neurose, ela desconfia que um dos hóspedes pode ser fiscal do Leading. E espalha ordens aos funcionários. O feeling é confirmado na manhã seguinte, quando ele se apresenta e mostra o relatório que preparou. Ela respira aliviada. "Deu uma nota boa; só fez umas observaçõezinhas."
Nati conta que esteve recentemente em São Paulo apresentando seu hotel a agentes de viagens. Ela ainda está cética quanto ao mercado que pode ter no Brasil. Mas aposta no carinho brasileiro, auxiliada pelo simpático gerente italiano Federico Colombo, um amante do Brasil, que arranha bem o português. E, apesar da crescente crise europeia, acredita que vai continuar a atrair ricos europeus, muitos deles russos.
Outros atrativos para manter bom movimento o ano todo são um spa de luxo, o esqui no inverno, o tênis nas outras estações e dois restaurantes estrelados, que na adega contam com alguns dos melhores vinhos franceses e italianos. Não faltam Chateau Petrus e os tintos de Gaia e, surpresa, bons vinhos suíços ? a produção é grande, mas quase toda ela consumida no país.
Vestida sempre com terninhos discretos, em tons de cinza e preto, Nati para em frente ao spa do hotel, um de seus xodós, que tem a exclusividade de uso da linha de cosméticos da clínica de Ivo Pitanguy. A escolha foi mais que patriotismo. Ela conheceu Pitanguy, dono de um apartamento na cidade, quando negociava com uma famosa perfumaria italiana. Ele lhe falou dos cosméticos que levam seu nome, negócio criado e tocado pela filha Gisela no fim de 2006. Fecharam acordo. Os cremes, que não são vendidos no Brasil, são mais um dos sucessos atuais do País na Europa. A marca Beauty by Clínica Pitanguy foi o produto do mês do Museu do Perfume, a grande loja de perfumes de Barcelona, no Passeig de Gracia.
A filha Giulia, de 10 anos, chega e conta para a mãe, em um português entremeado com uma ou outra palavra francesa, a rotina da escola. Crans-Montana fica a duas horas de Genebra, por carro ou trem. Os que têm jatinho chegam à cidade de 6 mil habitantes pelo aeroporto da cidade medieval de Sion, a 20 minutos do hotel.
A noite vai chegando e pinta de tons de rosa os picos nevados ao fundo. Ela mira mais ainda a construção. "Tenho uma convicção: fiz este hotel para ser duradouro." Nem a crise europeia parece assustar esta brasileira que está ali, perto do topo do mundo.
Fonte: Jornal o Estado de S.Paulo - Caderno de Economia - 07/06/2010